Comunicação indígena: Importância e desafios

Conforme Jennifer Pitaguary, diante de todos os padrões e estereótipos que eles vivenciam hoje é importante a inclusão nas redes sociais para que os indígenas possam expor suas ideias e falas em meio a toda a sociedade

Luan de Castro Tremembé – Foto: Iago Barreto Soares

Luan de Castro Tremembé atua na área da comunicação social indígena há cinco anos e afirma que todos os dias é um grande desafio.

“Quando criei a percepção de que as redes sociais de modo geral podiam ser importantes aliadas em nossas lutas, o movimento indígena ainda não compreendia o quão fortalecedor isso poderia ser. A falta de informações ou mesmo o compartilhamento de notícias falsas ou distorcidas da
realidade vivenciada por nós indígenas em nossas Aldeias, foi um fator
importante que me fez querer chegar na comunicação”, afirma.

O indígena conta que o longo desses últimos cinco anos foram muitos os desafios e ações para que
finalmente a comunicação começasse a ser compreendida como ferramenta de
luta para os territórios, e foi somente durante a pandemia de COVID-19 que o
uso das mídias sociais foi intensificado pelo o movimento, pois está seria a
principal forma de denunciar as violações de direitos nas Aldeias durante
o isolamento social.

“Muitos comunicadores indígenas no Ceará nasceram e hoje nós temos uma Rede de Comunicadores Indígenas- Juventude Indígena Conectada, que hoje reúne quase 100 jovem comunicadores representantes das 15 etnias do indígenas do Estado do Ceará, para o compartilhamento de
informações, conquista importante e que fortalece demais o movimento e a luta
pelo o território”, explica Luan.

Ele afirma que há vários anos, a luta do movimento indígena do Ceará tem sido para
além de demarcar os territórios, mas também para ocupar espaço importantes
como a universidade.

“Pode até parecer simples, mas para os Povos Indígenas o acesso ao ensino superior ainda é mais dificultado, e a permanência ainda se torna um desafio maior. Nesse sentindo, uma grande conquista foi o meu ingresso no curso de Jornalismo, me tornando assim o primeiro estudante de jornalismo indígena do Ceará, grande responsabilidade mais que assumo com a bênção dos
Encantados e das Lideranças do meu Povo”, pontua Luan.

Janaína Jenipapo , Acampamento Terra Livre (ATL) – Foto: Acauã Pitaguary

Segundo Janaína Jenipapo  do Acampamento Terra Livre (ATL), a comunicação indígena se faz presente em todos cenários, principalmente no tempos atuais em que insistem em desmanchar e descaracterizar a identidade indígena.

“A comunicação nasce a partir do momento em que atuamos em vários espaços. A política do
não indígena trás uma ideia de que somos os únicos menos merecedores dos
direitos. Por isso a importância de comunicar nas redes sociais, a participação
dos indígenas no cenário político. Mostrar potencialidades de vozes que podem
ocupar e construir também a bancada do cocar”, afirma.

Para ela, é necessário fortalecer as lutas e pintar esse cenário político de urucum e jenipapo. Além de mostrar que a comunicação indígena é a principal chave para abrir visões de que a resistência indígena pode ser a cura para este país. “Aldear as mídias também é um processo de resistência”, diz Janaína.

Sthefany Tremembé, Aldeia Córrego João Pereira

Sthefany Tremembé da Aldeia Córrego João Pereira, afirma que as redes sociais é uma ótima forma de mostrar o indígena no contexto moderno. Eles carregam na pele a ancestralidade o que faz com que as pessoas percebam que os indígenas não estão estagnados no tempo, além de quebrar estereótipos e mudar a visão errada que muitos têm sobre nós indígenas.

“As redes sociais é algo que sempre gostei e depois de um certo tempo
passei a criar conteúdos para as plataformas Instagram e tik tok e lá posto vídeos
sobre maquiagem e algumas trends a favor dos povos indígenas. Costumo
misturar a maquiagem tradicional com pinturas indígenas no rosto, para a criação
utilizo sombras e tinta para fazer os desenhos”, relata Sthefany.

Jennifer Pitaguary, Intercâmbio Cultural Pitaguary / Fulni-ô – Foto:Yago Medina, 2022

Conforme Jennifer Pitaguary, diante de todos os padrões e estereótipos que eles vivenciam hoje a inclusão nas redes sociais é fundamental para que os indígenas possam expor suas ideias e falas
para toda a sociedade.

“Eu faço parte de um grupo de jovens, que vem mostrando que nós
indígenas nos adaptamos com o tempo, mas não perdemos a nossa cultura. Nas
minhas redes sociais eu mostro um pouco da minha cultura; os nossos eventos
na aldeia, como fazemos as nossas pinturas e trajes, algumas músicas.
Resumindo, mostrando todos os nossos costumes tradicionais, pois, as redes sociais são uma ótima ferramenta para nos ajudar na disseminação da nossa cultura, dos nossos direitos e mostrar tudo aquilo que vem nos prejudicando no decorrer de todo esses 522 anos”, afirma Jennifer.

Renan Tabajara, Acampamento Terra Livre – ATL – Foto: Tearle Pinheiro

Renan Andrade Nascimento conhecido como Renan Tabajara, conta que iniciou
o trabalho como comunicador a pouco tempo, mas a vários anos faz diversos
registros.

“Sou do povo Tabajara da Serra das Matas, localizado no município de
Monsenhor Tabosa – CE, eu hoje além de ser uma liderança jovem, sou
comunicador do meu povo e da Juventude Indígena Conectada – JIC, o objetivo
do nosso trabalho é sempre mostrar a história, cultura, vivências, costumes e
traços dos nossos povos desde a base até a um Acampamento Terre livre, que
trago como exemplo, além disso sempre tentamos incentivar e trazer mais jovens
para somar conosco nesse lindo trabalho que está sendo desenvolvido”, ressalta Renan.

Italo Tremembé

De acordo com Italo Tremembé, as redes sociais também são importantes para quebrar
tabus sobre os indígenas.
“Falar sobre todas as falas racistas que recebemos é uma forma de prevenir para que tal ato não se repita. É representatividade, precisamos ocupar espaço na sociedade, pois, somos os verdadeiros donos dessa terra chamada Brasil”, afirma Italo.

 

Rodrigo Tremembé

Rodrigo Tremembé afirma que a comunicação cresceu com a necessidade de ocupar as redes sociais para reivindicação de diretos.

“Assuntos como moda, música, artes Visuais , gênero, comunicação, entre
outros, vem sendo caminhos para que indígenas possam demarcar territórios
físicos e/ou digitais, desse modo, levamos culturas de nossos povos do chão da
aldeia para o mundo, fazendo uma simbiose, costurando o moderno com o
ancestral, pois, a luta, que antes era com arco e flecha, hoje assume um papel
educativo, reflexivo e sobretudo político através do ato de comunicar”, ressalta Rodrigo.

Conforme Rodrigo, os indígenas vem utilizando as mídias digitais como ferramenta de resistência, por meio de uma rede de comunicadores e assim vozes antes invisibilizadas, hoje atuam quebrando estereótipos, preconceitos e descolonizando mentes.