Práticas ESG passam a ser cobradas pelo mercado investidor e movimentam incorporadoras

Mercado imobiliário passa a buscar melhores práticas em governança ambiental, social e corporativa; objetivo é buscar investidores e agregar sustentabilidade com vendas

Nos últimos anos, a sigla ESG (abreviação em inglês para Environment, Social e Governance – Governança Ambiental, Social e Corporativa, em tradução livre) tem ganhado cada vez mais espaço no mercado entre os investidores. A prática tem se tornado recorrente no mundo dos negócios e revela uma preocupação cada vez maior em relação às práticas sustentáveis e ambientais.

“O mundo está mais sensível a essas questões após perceber o mal que provocou à natureza durante muito tempo. Agora, as empresas começam a dar atenção a essas práticas, alinhando o crescimento com o caminho mais sustentável, pensando em boas práticas sociais, ambientais e governança”, explica Maurício Vono, planejador financeiro pessoal e CEO da YUNO, empresa de gestão de investimentos.

Maurício argumenta que ter o nome ‘positivo’ vem se tornando essencial para as empresas. “Assim como o comércio ou instituições financeiras não querem fazer negócio com pessoas com restrições, com nome sujo na praça, por exemplo, as empresas que querem acessar grandes linhas de financiamento precisam ter o selo de uma empresa ESG. É como um cadastro positivo”, explica.

O setor imobiliário vem sendo impactado por essas mudanças. Ao longo dos anos, uma série de regulamentações, como as do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama), vem cobrando das incorporadoras a adoção de medidas que mitigam o impacto da construção no meio ambiente, como a coleta seletiva, a logística reversa, entre outras. No âmbito social, as iniciativas que promovem o bem-estar e melhoria da vizinhança ou dos colaboradores envolvidos na obra acabam revertendo positivamente em simpatia e engajamento com a marca.

No cenário global, estima-se que cerca de US$ 30 trilhões em ativos estão sob gestão de fundos que aplicam recursos em negócios e empresas com práticas sustentáveis. Marcelo Vono explica que as empresas que seguem as práticas ESG correm menos riscos regulatórios por justamente já seguirem as leis e os regulamentos ambientais, daí a preferência dos fundos optarem ou preferirem investir nessas empresas.

No Brasil, de acordo com dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais (Ambima), existem 25.488 fundos de investimento em geral em operação, com patrimônio líquido total perto de R$ 7 trilhões. Desse total, apenas R$ 1,07 bilhões são referentes a fundos enquadrados na  categoria sustentabilidade e governança, segundo dados de fevereiro de 2021.

O volume ainda é tímido diante do potencial da indústria de investimentos sustentáveis no país. Apesar disso, os números de fevereiro de 2021 foram o dobro do quantitativo do ano anterior. Segundo a Ambima, houve um crescimento nos últimos cinco anos de aproximadamente 50% no número de fundos que se apresentam de alguma maneira como sustentáveis, e de quase 300% em seus ativos sob gestão.

De olho nesse montante, o planejador financeiro diz que as instituições estão preocupadas em manter relacionamento apenas com quem adota posturas de boas práticas. “Uma grande instituição financeira, por exemplo, que apoia uma empresa fraudulenta ou que não tem boas práticas, pode de forma indireta sujar o seu nome, se queimar no mercado. Então, as empresas estão cada vez mais preocupadas em fazer negócios com empresas que também são sustentáveis”. Os bancos também estão seguindo essa mesma tendência na hora de liberar financiamentos.

O especialista em gestão de investimentos destaca os fundos da B3, antiga Bolsa de Valores de São Paulo, como exemplo. “Hoje há fundos que só investem em empresas com selo ESG, que não querem colocar dinheiro em qualquer empresa”, explica Vono. Desde 2005, a B3 seleciona empresas reconhecidas em boas práticas de sustentabilidade para integrarem a carteira de investimentos do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE).

 

Já está na B3

A MRV, construtora do grupo MRV&CO, é a única construtora integrante do ISE. A entrada no seleto grupo da B3 ocorreu em 2017. “Montamos um projeto e ficamos trabalhando nele três anos antes. Foi quando nos tornamos mais profissionalizados, buscando certificados. Entramos na carteira da bolsa logo depois e não saímos mais”, detalha José Luiz, que explica que se manter na carteira é mais difícil do que entrar. “A cada três anos muda o padrão, sobe a régua (de corte). Temos que responder anualmente um questionário que envolve 32 áreas dentro da empresa e hoje somos a única construtora no índice. A vantagem de todo o esforço é chamar a atenção dos investidores estrangeiros, que geralmente buscam carteiras de referência, muitas vezes da sustentabilidade. É uma porta de entrada para investidores estrangeiros”.

A companhia também foi selecionada pelo 7º ano consecutivo para integrar a carteira do Índice Carbono Eficiente da B3 (ICO2 B3) de 2022, indicador que atesta o comprometimento de empresas no fomento de uma economia de baixo carbono. Nesta edição, a carteira teve a entrada de novas 11 ações, em comparação ao ano anterior, resultando assim em 45 empresas, de 29 setores. Essa lista é composta por companhias que elaboraram seu Inventário de Gases de Efeito Estufa (GEE) e aderiram à iniciativa do índice, reportando à B3 informações de 2021.

A construtora reduziu 80 mil toneladas de emissões de GEE em 2020 e busca reforçar o compromisso com o tema e o esforço da companhia em ser referência na agenda climática global. “Desde 2013, buscamos sempre evoluir em prol do combate à mudança do clima e da promoção de ações de sustentabilidade, com foco na economia de baixo carbono. O fato de nos mantermos na carteira, chancela o que temos feito e permite que os investidores nos enxerguem como uma companhia que realmente se importa com o tema”, reforça o CEO da MRV, Eduardo Fischer.

Para o gestor executivo de sustentabilidade da MRV, José Luiz Esteves Fonseca, conseguir entrar na carteira da B3 foi a confirmação do trabalho que vinha sendo feito desde 2007, quando a empresa abriu o capital. “Naquele ano, já procurávamos fazer um investimento privado em melhorias no entorno das obras, mas não só para valorizar o empreendimento, mas dar uma boa moradia. O ESG só chegou em 2010, quando começamos a olhar a questão dos resíduos nas obras e tivemos que trabalhar internamente e entender como poderíamos fazer o reúso desses materiais. Com essa evolução, em 2015 criamos o ano da sustentabilidade na MRV e o Instituto MRV, que é responsável pelo trabalho social da empresa com crianças, adolescentes e jovens nas áreas da educação, emprego e esporte. Tudo isso para conscientizar os colaboradores para as práticas. Paralelo a isso, trabalhamos em busca da carteira”, explica.

Para José Luiz Esteves Fonseca, as empresas têm responsabilidade em mudar a realidade social e ambiental em sua volta. “Sabemos que o modelo de construção civil é impactante na vizinhança, gera incômodo, poeira, ruído e até problema no trânsito. E buscamos mudar isso. Em São Gonçalo, cidade da Grande Rio de Janeiro, por exemplo, iniciamos o programa Vizinhos do Bem em uma região dominada por facções criminosas de todo tipo. Construímos um conjunto habitacional e colocamos em prática algumas ações para ajudar aquela comunidade”, conta José Luiz.

“Também fizemos um trabalho de qualificação de pintor em parceria com a Basf, dona da Suvinil, com 10 turmas, sendo duas só com mulheres, todos moradores da região. O diferencial foi que eles não treinavam só em uma parede. Eles pintaram todo o empreendimento que eles moravam. Revitalizamos toda a área e acabou virou um cartão de visitas de São Gonçalo, conhecida como cidade-dormitório, além de dar oportunidade de emprego aos moradores”, explica José Luiz, e conclui: “Em cinco anos que levamos para construir todo o empreendimento, em setembro entregamos a última etapa, nunca tivemos uma paralisação das obras e ajudamos toda a comunidade”.