‘Fui vítima de chacotas, humilhações em rede nacional’, diz empresária flagrada com morador de rua durante um surto

Para a psicóloga Michelle Branquinho, é assustador ver que o Givaldo tenha se aproveitado da situação para conseguir fama e que as pessoas tenham aceitado isso, mas há algumas razões que podem justificar esse fenômeno

A empresária Sandra Mara Fernandes que virou notícia depois ser flagrada pelo marido tendo relações sexuais com o morador de rua Givaldo Alves, durante um surto psicótico, disse que recebe com frequência mensagens com xingamentos e insultos de cunho sexual. Ela afirma que isso é resultado da sociedade machista em que vivemos.

“Fui vítima de chacotas, humilhações em rede nacional. Fui taxada como uma mulher qualquer, uma mulher promíscua , uma mulher com fetiches , uma traidora. Eu sempre soube que vivemos numa sociedade desigual, mas eu não escolhi ter um surto, eu não escolhi ter sido humilhada, eu não escolhi ter minha vida exposta e devastada”, escreveu Sandra em uma rede social.

Para a psicóloga Michelle Branquinho, é assustador ver que o Givaldo tenha se aproveitado da situação para conseguir fama e que as pessoas tenham aceitado isso, mas há algumas razões que podem justificar esse fenômeno.

“A primeira delas é que, estamos em uma sociedade que idolatra o homem, o homem pegador mesmo, principalmente nesse caso que ele conseguiu uma mulher muito bonita e bem sucedida. Então isso faz com que ele seja idolatrado, e faz com que os outros o admirem, pois, vivemos uma cultura machista. Outro ponto é a compaixão, a forma como ele foi espancado pelo marido, que havia sido traído fez com que ele se tornasse vítima nessa história. A sociedade rejeita a agressão e sente compaixão de quem foi agredido. Então a gente tem dois fatores aí que parecem distantes, mas que nesse caso são muito claros”, explica Michelle.

Conforme a profissional, outro ponto que podemos observar é justamente sobre a conquista de seguidores, fãs e  pessoas que passaram a acompanhá-lo.

“É como se ele tivesse uma história de superação, de mendigo a celebridade e as pessoas precisam se apegar em algo que lhes ofereçam esperança, alguma coisa que faça com que elas possam crer que amanhã sempre vai poder ser melhor, sempre vai ter uma solução. É comum as pessoas terem pensamentos como: se ele conseguiu eu também consigo, tem solução para mim e assim por diante. Esses fatores fazem toda a diferença para que uma pessoa como ele atinja o sucesso que atingiu”, esclarece Michelle.

Em entrevista à Folha de S. Paulo, a empresária contou que precisou vender a loja que tinha e se mudar da cidade de Planaltina (DF).

“Ele [Givaldo] me expôs como mulher, como ser humano, ele me atacou de todas as maneiras possíveis, então, ele acabou ali com a minha moral. Criaram perfis falsos em meu nome usando as minhas fotos. A população acreditou que tudo aquilo que ele falou era verdade”, desabafou Sandra.

De acordo com a psicóloga, essa exposição pode gerar muitas outras consequências,  inclusive a perda de convivência com pessoas.

‘Nós precisamos pensar que enquanto este homem se torna uma celebridade, se torna alguém que tem feito muito sucesso. nós vemos aí uma mulher, que não só nessa condição que ela teve uma internação psiquiátrica é tudo, mas nós começamos a perceber que quando a busca pelo prazer vem da mulher, logo a gente arranja um problema para catalogar ela, para rotular ela de maluca, promíscua, ninfomaníaca e assim por diante. Eu não estou sugerindo que ela não tenha problemas psiquiátricos, pelo contrário, indiferente do problema psiquiátrico que piora um pouco a situação, mas qualquer mulher que passasse por uma situação, seja com um cara da balada ou com qualquer outra pessoa, iria ser tratada assim. E muitas vezes nós acabamos marginalizando essas pessoas por viverem a vida do jeito que elas querem”, ressalta a psicóloga.

Conforme Michelle esse tipo de situação é comum porquê a sociedade costuma admirar alguém que saia de uma condição de vulnerabilidade e se torna alguém famoso, mas não se sensibiliza com alguém doente.

Michelle Branquinho, psicóloga – Foto: Arquivo Pessoal

“Nós temos uma dificuldade muito grande de olhar para as dores, sejam nossas ou sejam dos outros. Então o ex morador de rua que até então era visto como vítima. agora é um herói, é uma celebridade e isso vai trazendo muitas consequências ao longo dos anos. A vida vai passando e essa mulher vai continuar sendo rotulada. A gente vê aí sinais de delírio, sinais psiquiátricos, que nunca foram ressaltados, que nunca se pensou nisso e que pouco se fala disso. O que mais importa é o mendigo deixar de ser mendigo se tornar celebridade. Nós temos uma dificuldade de empatia, capacidade de se colocar no lugar do outro e de entender o contexto daquele outro. Então, quando a gente vê a história dessa mulher, quando a gente analisa essa história, nós não analisamos a perspectiva dela, nós não temos esse hábito de parar e perguntar, mas por que uma pessoa faria isso? Isso é do ser humano, nós sempre criticamos julgamos e não paramos para analisar e essa falta de análise pode trazer consequências irreversíveis para a vida das pessoas”, afirma.

Segundo a psicóloga, essa ridicularização da mulher e glorificação do homem é resultado da sociedade patriarcal em que vivemos.

“A maioria dos núcleos familiares, tanto nos países ocidentais quanto orientais, tem uma estrutura que coloca a figura do homem em uma posição de superioridade, atribuindo a ele o papel de sustentar a casa enquanto da mulher é submissa à vontade masculina e por mais que esse cenário esteja mudando e muitas famílias já não partilham mais desse pressuposto, a sociedade ainda tem uma visão patriarcal, ou seja, é voltada para a figura do homem e privilegia os homens em relação às mulheres, colocando-os numa posição de hierarquia superior. Então, há atitudes dos homens que sempre transparecem essa noção de hierarquia e são justificados pela ideia de que as funções distintas entre homem e mulher é algo natural, alegando que diferente não significa pior, pelo contrário, cada um tem seu papel. Isso acaba trazendo aí uma supremacia masculina e uma desvalorização da identidade feminina”, afirma.

 

Mas afinal, o que é esse transtorno bipolar que a Sandra Mara foi diagnosticada?

 

Conforme médicos do Hospital Universitário de Brasília (DF) Sandra Mara apresenta sinais de “transtorno afetivo bipolar em fase maníaca psicótica” que segundo o psicólogo Adriano Gualberto, é um transtorno mental com quadro crônico, recorrente e incapacitante. Representa um grande problema de saúde com graves consequências sociais e econômicas devido, sobretudo, a não adesão ao tratamento que passa por estabilizantes do humor. Caracteriza-se pelas condições de mania (comportamento desinibido e hiperativo) e depressão (mudança extrema no estado de ânimo e comportamento).

De acordo com a quinta edição do Manual Estatístico e Diagnóstico de Doenças Mentais (DSM-V; APA, 2013), a fase de mania pode ser entendida como um período distinto de humor anormal e continuamente elevado, expansível ou irritável.

Adriano Gualberto, psicólogo – Foto: Arquivo Pessoal

“É uma fase de muita “energia” que pode ser perturbadora e prejudicial para o paciente e para aqueles com quem convive. Durante tais episódios pode haver alterações como: diminuição ou ausência de sono, aumento na quantidade de exercícios, forte impulso para ser mais ativo social ou sexualmente e recusa em comer e beber. Já na fase de depressão as principais alterações, destacam-se: diminuição da atividade motora, depressão do humor, melancolia e dificuldade de concentração”, afirma o profissional.

Para a estudante de Direito Renata Louredo caso seja comprovado que Givaldo percebeu que Sandra Mara não estava em seu estado normal, ele pode responder por estupro de vulnerável.

Renata Louredo, estudante de Direito – Foto: Arquivo Pessoal

“Restou provado que a empresária possui transtorno mental, nesse caso, há de ser verificado se o morador de rua possuía condições de perceber que a mulher não estava em seu estado normal. Se ficar provado que Givaldo sabia do surto psicótico, ele responderá pelo estupro de vulnerável”, explica Renata.